APEMÚSICA
Boletim
Agosto 2004√
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Entrevista com
O professor e maestro fala-nos dos seus pontos de vista acerca do ensino da música em Portugal.
Novo formato, novo
título
Boletim APEMÚSICA
O boletim APEMÚSICA regressa em 2004, depois de um interregno de um ano e meio. Pretende-se, com este novo formato, realizar um contacto cada vez mais estreito com os associados, contribuindo para tornar mais unidos os profissionais do ensino da música. A reedição do boletim contará com um espaço de entrevista a pessoas cujo mérito no campo musical em geral e no ensino da música em particular é inquestionável. Outras rubricas serão dedicadas a artigos de opinião, artigos científicos, vida associativa e actividades de interesse para os associados. O contributo dos leitores não é esquecido, e assim, apela-se à participação dos sócios, colocando questões, enviando um email para apemusica@clix.pt. Dar-se-à prioridade aos emails de associados, no entanto, outros agentes da comunidade educativa poderão igualmente colaborar neste espaço. Numa primeira fase procuraremos que a periodicidade do boletim passe a ser semestral.
Concursos desastrosos,
gestores nas escolas, desvalorização da escola pública,
muitas são as promessas de descalabro que o novo Governo parece querer
levar a efeito na sequência da gestão daquele de que herdou
as funções. Na educação, como noutras áreas,
a ideia-chave parece ser a de criar um Portugal em duas faces: a dos serviços
de qualidade, pagos a peso de ouro, para os que têm capacidade financeira
para tal, e a dos serviços mínimos, de preferência
com condições cada vez mais precárias, para todos
os outros. Com outras e mais tradicionais divisões pelo meio, de
que se destaca a clássica desigualdade entre o interior e o litoral,
ridícula num país tão pequeno, mas potenciada por
medidas como o encerramento de escolas nos núcleos populacionais
mais envelhecidos. No meio de tudo isto, a música não escapa
ao descalabro, e o seu lugar tradicionalmente secundário nas políticas
educativas portuguesas faz-se sentir, por exemplo, na permanente ambiguidade
do seu papel no quadro do ensino regular e na inexistência de uma
rede, digna desse nome, de escolas públicas do ensino especializado
- a rede existente é assegurada por escolas do ensino particular e
cooperativo.
Entretanto vão-se
arrastando velhos problemas - habilitações, indefinição
do papel dos cursos atribuídos pelos conservatórios - e a
falta de gestão no sector, aliada à sua indefinição
como área prioritária, vai criando novos problemas, que nos
habituamos a ver noutros sectores (desemprego, precaridade, situações
contratuais pouco claras) e lança a nossa área numa crise
de identidade cada vez maior.
A APEMÚSICA
está atenta e solidária nas lutas comuns a todos os profissionais
do ensino, e especialmente empenhada na defesa e valorização
do nosso sector. A experiência positiva que foi a sessão realizada
num escola do ensino especializado – Academia de Guimarães - mostrou
que a nossa classe profissional, tradicionalmente relutante em assumir-se
como classe, tem vindo a ganhar uma consciência cada vez maior dessa
sua condição e dos problemas específicos a ela inerentes.
E, se o novo Governo promete continuar a sua luta pela privatização
e gestão economicista da educação e pela elitização
do ensino da música, nós, profissionais do ensino da música,
reunidos na APEMÚSICA, nos sindicatos, no nosso trabalho diário,
prometemos lutar contra essa corrente e defender a dignificação,
a generalização e a democratização do ensino
da música.
Carlos Canhoto
Academia
de Música Valentim Moreira de Sá
A 5 de Abril de 2004
a APEMÚSICA levou a cabo uma acção de sensibilização
para o sector, na Academia de Música Valentim Moreira de Sá,
em Guimarães, junto de um número significativo de professores
daquela escola de ensino vocacional.
Começamos por
dirigir um voto de agradecimento à direcção pedagógica
da escola (Prof. Salvador e Prof. Vitor Matos) por colaborarem com a APEMÚSICA,
ao permitirem a realização de uma acção deste
género, estando dessa forma a contribuir para um maior esclarecimento
dos seus professores. Até porque, foi notória a preocupação
das pessoas para com vários dos assuntos que mais têm sido
debatidos nos últimos anos, e que continuam sem resolução
à vista, tais como, a questão das habilitações,
o rumo das escolas profissionais, os programas (curricula) alternativos,
entre outros.
Uma das ideias mais
concludentes deste encontro é a de que há uma necessidade
crescente dos profissionais desta área se unirem em torno de questões
que interagem directamente com o processo de ensino da música, e
sobre as quais as pessoas, por desconhecimento ou desinteresse, não
discutem no seu dia-a-dia
O lema é velho:
a união faz a força; mas esta classe profissional é
considerada por muitos como uma classe desunida. No entanto, ao depararmos
com o entusiasmo verificado no debate de ideias realizado na Academia de
Música Valentim Moreira de Sá facilmente nos apercebemos da
predisposição reinante: existe sentido de união, de
projecto de escola, assim como vontade e “à-vontade” para falar em
questões tão delicadas, como a comparação possível
entre escolas profissionais e conservatórios. Este foi um assunto
amplamente discutido, em virtude das alterações que a existência
dos dois tipos de escola provoca no seio do sistema de formação
ao nível secundário, e das diferenças fundamentais
entre estes.
Os professores presentes,
cerca de quinze, de diversos instrumentos e disciplinas teório-práticas,
revelaram-se muito favoráveis ao parecer, redigido pela APEMÚSICA,
sobre a proposta de reforma do ensino artístico. Foram vários
os pontos de confluência de opiniões entre os presentes e a
associação, sendo que, o que mais se salienta, é a
não aceitação da falta de dignidade que ainda hoje é
conferida a este sector.
Houve, igualmente,
muito interesse e apoio dado à actividade da APEMÚSICA,
que, nas palavras de um dos presentes, “pode ter um papel fundamental na
união dos professores de música”.
O objectivo desta
acção foi amplamente atingido, dada a grande disponibilidade
manifestada por todos os presentes para a discussão de aspectos que
constituem as nossas lutas diárias enquanto professores de uma área
que não é encarada com seriedade por parte dos sucessivos governos.
APEMÚSICA no Escola Informação
A convite do Sindicato
dos Professores da Grande Lisboa (SPGL) a APEMÚSICA colaborou na
edição de Junho/Julho do orgão Escola Informação, através
do seu parecer sobre a reforma do ensino artístico, publicado no
dossiê Enfoque subordinado ao tema
“Reforma do Ensino Secundário - Um mar de indefinições
e contradições”.
“Este ensino tem de funcionar independentemente de
questões economicistas”
Entrevista a Borges
Coelho
Apemúsica:
Como é que via o ensino quando era estudante ?
Borges Coelho: Eu cheguei
ao conservatório tarde, já adulto. Estudava música
por minha conta e risco desde os dez anos. Só quando vim para a universidade
fui para o conservatório. Antes tinha tentado, mas estudar música
nesse tempo não era coisa que colhesse apoios. De facto, comecei
por vir fazer os solfejos. Entre Maio e Julho fiz os solfejos. Disseram-me
quais eram os livros adoptados, fui para casa, e tumba, tumba, tumba… e
fiz! (…) O meu objectivo era fazer a composição, só
que, no 3º ano da faculdade fundei o Coral de Letras, e foi a “machadada”
no percurso certinho do conservatório, e, vim a acabar o curso superior,
mas de Canto, no ano do 25 de Abril. Estava agendada para dia 26 de Abril
uma ópera em que eu entrava, com a Palmira Troufa, que foi adiada
para o dia 28. E depois, quando a quiseram repetir e gravar para a televisão,
eu achei que, havendo operários na rua, não tinha nada que
andar a fazer ópera. Mas voltando ao que era o ensino, o conservatório
de música do Porto tinha pouquíssimos alunos, e com um grande
desnível social. Alguns eram filhos de gente bem, íam ali
procurar umas luzes – e alguns acabavam por terminar o percurso – e depois
havia a maior percentagem que eram alunos que tinham a 4ª classe, porque
era o que era exigido. Por exemplo, nas aulas de História da Música,
o professor ditava muito devagar os apontamentos, e as pessoas escreviam
muito devagar também... E depois havia um exame que só tinha
prova oral de dez minutos, e o bom do professor Delerue fazia as despesas
das perguntas e das respostas… (risos)
Na acústica
era a mesma coisa. Nos instrumentos era naturalmente um bocado mais sério.
Mas havia instrumentos de primeira, e instrumentos de segunda, de terceira
e de quarta. Percussão não havia. Trombone tinha três
ou quatro anos. Os sopros, nenhum tinha curso superior. Curso superior só
violino, violoncelo, piano, composição e canto. E de qualquer
modo eram cursos superiores não conferentes de grau. Por outro lado,
a coisa complicou-se com a reforma do Veiga Simão. Passou a haver
uma escola preparatória em cada concelho e era preciso professores
para isto. Foi aí que a população do conservatório
começou a aumentar. As pessoas queriam ser músicos porque
era uma forma rápida de chegar à carreira docente, com habilitação
suficiente.
Com o Curso Geral de
Composição, que era condição para se fazer os
outros cursos gerais, o aluno podia ir para o ensino. Com o curso geral de
um instrumento qualquer ía para o ensino com habilitação
própria. Era preciso resistir à tentação de
“curto-circuitar” o sistema e ir dar aulas.(…) Hoje tende a ser mais complicado.
As coisas mudaram, para melhor mas longe de ser para bem.
O que é que
deveríamos percorrer? O que é que falta a este ensino?
Faltam estímulos,
estímulos de qualidade, a vários níveis. Dever-se-ía
começar por baixo com professores altamente qualificados.
Quando
estava de volta dos curriculos para as escolas profissionais a carga horária
de instrumento e de prática de orquestra era tão grande que
eu dava por mim a pensar assim: se o professor é bom, vai ser um
espectáculo, se não presta, vai ser um massacre, vão
ser muitas horas de desgraça. Eu larguei o GETAP (foi a gota de água)
quando os planos curriculares que eu andava a elaborar para lá, foram
deixados cair assim, na escola, sem nenhuma preparação dos
professores que lá estavam, carregados de vícios, alguns. (…)
É isso. É começar de novo com professores muito capazes,
e manterem altos padrões de exigência, sempre. Mas enquanto
o ensino regular não oferecer alternativas (e de facto não
oferece) as escolas de música vão sentir que devem preencher
essa lacuna. (…) Eu não acredito que estes governos profundamente
economicistas, seja do PS, seja do PSD – e no fundo quando toca aqui “a este
lado” as diferenças são curtas – o discurso cultural é
diferente, mas, medidas concretas, eficazes, essas vão-se adiando sistematicamente…
Porque
a verdade é esta: o interior é sistematicamente penalizado
em toda a linha. Não havendo escolas no interior como é que
as pessoas se podem fixar? Tudo depende do contexto. Na Alemanha, por exemplo,
todas as escolas secundárias e preparatórias têm música
ao mais alto nível.(…) Mas nós não estamos aí.
E não estando, têm que haver escolas de nível secundário
disseminadas pelo menos uma em cada capital de distrito. (…) Essas escolas
deviam ser financiadas a cem por cento.
Qual é a
sua postura face à proposta de reestruturação do ensino
artístico apresentada pelo governo?
Eu escrevi uma carta
ao ministro sobre a questão das escolas profissionais. Ele respondeu-me
que a tinha lido com bastante atenção. E tomei uma posição,
e a posição resumindo é a de que… portanto, eles preparam-se
para acabar com as escolas profissionais, tentando homogeneizar o ensino
vocacional numa via apenas, eliminando uma data de coisas que são
as que fazem a diferença nas profissionais e pondo uns “cheirinhos”
nas outras escolas, julgando com isso colmatar a falha das outras. E eu dizia
ao ministro que o grande risco era esse: por mais que as escolas vocacionais
lucrem alguma coisa, esse lucro não vai jamais compensar a perda.(…)
Eu creio que o grande
sucesso das escolas profissionais bate aí: no facto de terem aulas
(de naipe) que são acompanhadas e naquela quantidadezinha de horas
de orquestra. Depois têm, como em todas as outras escolas, o horário
de instrumento.
O argumento da proposta é de que as escolas profissionais serviam para formar quadros médios e as pessoas acabam por ir todas para o ensino superior.
Na altura em que foram
criadas as escolas profissionais, eu sabia que as escolas de nível
III, preparavam para a vida activa aos 18 anos, no fim de uma escola secundária,
com alunos que não tinham começado cedo. No ano em que no
Porto se extinguia a antiga orquestra e se criava a Régie Cooperativa
Sinfonia só com músicos estrangeiros (entraram dois ou três
da orquestra antiga). Ainda por cima não havia o patamar inferior.
Só estava previsto o nível III. Depois desta minha investida,
o director foi sensível a criar (por pressão também,
da Artave) o nível II, sem lhe chamar nível II – porque o nível
II profissional prepara para a vida activa, não prepara para nível
III. Os meninos começavam ali, no nível II e continuavam no
nível III. E eu, muito cedo, disse que isso ía dar frutos,
mas… atenção: esses não são os alunos que vão
para a vida activa mas vão para as escolas superiores que na altura
estavam às moscas, à frente de todos os outros.
Havia algum desfasamento entre o nível de conclusão dos conservatórios e o nível de admissão das escolas superiores…
Não havia “conversa”
entre a escola secundária e a superior, e de algum modo, nos primórdios,
havia as duas situações: por um lado entravam alunos, porque
era preciso fazer funcionar a coisa, tivessem ou não tivessem qualidade,
mas por outro lado também havia algumas áreas em que criaram
algumas dificuldades, e os professores ficaram por lá um ano inteiro
“ao alto”.
Encontra-se a pagamento
a quota referente ao ano de 2004.
Os sócios que
desejem efectuar pagamentos de quotas atrasadas podem fazê-lo por
transferência bancária para o NIB da Apemúsica: sem
esquecerem de referir o nº de sócio e anos a que respeitam as
quotas (por exemplo: “nº343,02,03).
Entre em contacto com
a APEMÚSICA pelo telefone: Quando
não se encontra ninguém na sede, as chamadas são reenviadas
para elementos da direcção.
15 minutos antes da
partida para… onde?!
Onde é que o
professor António vai ser colocado?
Amanhã de manhã
tem que se apresentar na escola… E ainda não sabe qual é… nem
em que região do país fica…